Quem bebe da água do carvão transforma Criciúma

Cidade chega aos 100 anos de emancipação valorizando a pluralidade que a impulsiona

Há 100 anos, um pedaço do Sul de Santa Catarina começava a escrever sua própria história com tinta preta como o carvão e suor de muitos povos. Alemães, italianos, poloneses, árabes, portugueses, espanhóis, africanos e imigrantes de todas as partes do mundo encontraram em Criciúma um solo fértil para recomeçar e, juntos, transformaram uma terra em um dos maiores polos industriais e econômicos do estado. 


Impulsionados pela mineração e moldados pela força do trabalho, esses imigrantes deixaram descendentes e marcas profundas que, até hoje, definem a identidade de uma cidade construída pela diversidade e movida pela esperança. O município que há um século começou a ser transformado pelas mãos de diferentes, ainda é formando por um mosaico cultural que se mantém vivo e pulsante ao longo do tempo. A cidade segue sendo um ponto de encontro de povos e histórias. 


Como no começo da sua trajetória, a população natural de Criciúma continua crescendo ao mesmo tempo que o município atrai pessoas de várias partes do Brasil e do mundo, seja em busca de oportunidades, de qualidade de vida ou em busca de fazer parte de uma comunidade que acolhe quem quer somar. Essa pluralidade humana é o motor que impulsiona o desenvolvimento local, fortalecendo a economia, a cultura e o sentimento de comunidade. 


Até os dias atuais é assim. O Censo de 2022 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostrou um forte crescimento no número de moradores de Criciúma que não nasceram na cidade. São pessoas vindas de todas as regiões do Brasil e também de outros países.

Onde nasceram os moradores de Criciúma?

Os números mostram algumas curiosidades. O Sul do país continua, obviamente, sendo a região com mais moradores em Criciúma, já que estão inseridas no dado as pessoas que nasceram no município. O levantamento detalha ainda que, considerando somente o público que nasceu nos três estados do Sul, são 177.879 catarinenses, 17.032 gaúchos e 5.868 paranaenses morando na maior cidade do Sul de Santa Catarina.


Apesar de liderar as regiões que imigram pessoas para Criciúma, o Sul do país perdeu representatividade quando observada a proporção. Em 2010, 96,87% da população criciumense nasceu em Santa Catarina, Rio Grande do Sul ou Paraná. Em 2022, esse número passou para 93,61%. Olhando para outras regiões brasileiras, os sudestinos vêm logo na sequência na lista (2,01%), seguidos pelos nordestinos (1,93%), nortistas (1,46%) e centro-oestinos (0,27%). Aqueles que nasceram em outros países representam 0,68% da população de Criciúma, apontaram os dados do Censo 2022 do IBGE.

A emancipação político-administrativa de Criciúma completa 100 anos no dia 4 de novembro. A força do município está justamente nessa união de origens e sonhos, que constrói diariamente o futuro do município.


Entretanto, como Criciúma se tornou tão plural? Quem teve a ideia de emancipar? Por que Criciúma deixou de fazer parte de Araranguá e quais os impactos a região sofreu? Os imigrantes realmente desenvolveram a cidade? Como o município teve três clubes de futebol? Quem descobriu a mineração? Quem são as pessoas que constroem o município todos os dias? A trajetória secular criciumense explica o porquê de Criciúma ser tão conhecida nacionalmente e, principalmente, o que a tornou uma cidade tão acolhedora.

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História

História de Criciúma

Oficialmente Criciúma vai se constituindo desde 1880, data marco da chegada de imigrantes, na virada do século XIX para o século XX. O Sul de Santa Catarina possuía três grandes municípios que são Laguna, Tubarão e Araranguá (os municípios polos da região na época). 


Então, nesse contexto é que surge Criciúma com a chegada dos imigrantes europeus. Mas, é bom deixar claro que a região já era habitada, pois existia a população indígena, luso-brasileira e os africanos que viviam na área onde é Criciúma. Em 1892 Criciúma se torna distrito de Araranguá e em 1911 tem o seu primeiro conselheiro municipal, que hoje chamamos de vereador, o Marcos Rovaris. Então, quando é criado o distrito, o morador João Zanette é nomeado o primeiro intendente, o primeiro representante do distrito criado do município de Araranguá.


Criciúma é construída diariamente por diversas pessoas. Desde sua emancipação, a cidade sempre teve moradores que se uniram e buscaram o melhor para o seu povo. Hoje, não é diferente. Buscar entender a história de Criciúma não é uma tarefa fácil, principalmente pelos dias corridos que vivemos e que poucos se interessam por onde tudo começou. A reportagem do Portal Engeplus buscou com historiador, munícipes, políticos e com profissionais entender a história e como o município se desenvolveu desde sua emancipação em 1925.

Emancipação: entenda os processos 

O processo de emancipação de Criciúma iniciou por uma articulação feita por comerciantes do distrito de Criciúma, que buscavam começar a comandar o espaço, o transformando em município. “Existia um processo de ocupação da região por colonização, então eram todos colonos e agricultores. Mas, alguns vão se destacando no processo e deixando de ser agricultores e se tornando comerciantes que vão articular este processo de emancipação na década de 1920. À frente deles estão Marcos RovarisJoão ZanetteGabriel Arns. São todos imigrantes italianos e descendentes de alemães que estão liderando o processo e ligados ao comércio, que deixaram as atividades agrícolas e vão desenvolver atividades no comércio”, relembra o professor doutor do curso de História da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), João Henrique Zanelatto

Marcos Rovaris tinha a veia empreendedora antes mesmo de se transferir para o Brasil. O professor lembra que quando chegou em solo catarinense, o italiano já possuía terrenos e aproveitou de suas posses para iniciar as atividades de uma fábrica de banha. “Esses comerciantes são de famílias que vão se destacar nas atividades comerciais anos depois. Como eles se destacavam? Muitos não queriam seguir nas atividades agrícolas e vendiam ou alugavam as suas terras para irem para a atividade comercial. São esses comerciantes que vão se evidenciando e querem se desmembrar de Araranguá que, na época, era comandada pelo coronel João Fernandes (luso-brasileiro), que dominava a cidade e a região com um poder político muito forte”, conta.

Marcos Rovaris tinha a veia empreendedora antes mesmo de se transferir para o Brasil. O professor lembra que quando chegou em solo catarinense, o italiano já possuía terrenos e aproveitou de suas posses para iniciar as atividades de uma fábrica de banha. “Esses comerciantes são famílias que vão se destacar nas atividades comerciais anos depois. Como eles se destacavam? Muitos não queriam seguir nas atividades agrícolas e vendiam ou alugavam as suas terras para irem para a atividade comercial. São esses comerciantes que vão se evidenciando e querem se desmembrar de Araranguá que, na época, era comandada pelo coronel João Fernandes (luso-brasileiro), que dominava a cidade e a região com um poder político muito forte”, conta.

Professor doutor do curso de História da Unesc, João Henrique Zanelatto. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

Esses comerciantes citados pelo historiador iniciam na década de 20 a articulação do processo de emancipação. Porém, existe outro ingrediente nesse processo: a mineração. A partir de 1910, especialmente com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), houve um crescimento da exploração do carvão em Criciúma. “Lembrando que a exploração do carvão não começou em Criciúma e, sim, na região de Orleans e, especialmente, em Lauro Müller. Então, o processo de emancipação também começou a gerar um processo de disputas. Todo processo de emancipação tem as suas singularidades, especificidades, mas também é um processo de disputas e de interesses de grupos. Araranguá não queria perder Criciúma, devido à mineração, que era um recurso econômico significativo”, afirma.

Marcos Rovaris: peça fundamental para a emancipação de Criciúma 

Conforme o professor de história, o processo de emancipação política de Criciúma começa a ser articulado por Marcos Rovaris. Ele cria uma comissão emancipadora, formada por esses comerciantes, que articulava com o deputado estadual Cássio Moreira, compadre do Rovaris. Após montarem a comissão, vão para Florianópolis e negociam na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), junto ao Governo do Estado, que agora era comandado por Antônio Pereira, vice que havia assumido a gestão após a morte do governador Hercílio Luz em 1924. Vitor Conder, sendo o secretário de finanças do Governo do Estado naquele momento, elabora o projeto de emancipação. Rapidamente eles finalizaram o projeto, encaminharam para a Assembleia para ser votado e conseguiram a aprovação. No mesmo dia, em 4 de novembro de 1925, o governador sancionou. No dia 1º de janeiro de 1926, o município foi oficialmente instalado. 

Marcos Rovaris foi peça fundamental na emancipação de Criciúma. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Criciúma)

“Quando a comissão saiu de Criciúma para ir para Florianópolis, eles já saíram com a montagem do grupo que iria assumir o município. O Marcos Rovaris seria o superintendente (prefeito) e os outros comerciantes seriam os vereadores, que eram chamados de conselheiros municipais. Esse pessoal que já estava articulando o processo de emancipação volta de Florianópolis e assume o comando do município”, destaca. 


Aproximadamente oito pessoas ficaram em Florianópolis pouco mais de uma semana para conseguirem aprovar a emancipação. “Em janeiro de 1926 a comissão passa a liderar a gestão de Criciúma. Em agosto do mesmo ano ocorre a eleição municipal, onde o próprio Marcos Rovaris foi eleito novamente para comandar o município de 1926 até 1930. Isso marca muito a história da cidade. É um processo de emancipação por descendentes de imigrantes, especialmente italianos”, ressalta. 


Para o professor de história, o processo de emancipação foi responsável por aproximar o Governo do Estado com a sociedade e criou infraestruturas de atendimento para a população mais próxima, como educação, saúde e esporte. “O processo de emancipação é sempre positivo, por mais que tenhamos algumas críticas a esses processos de emancipações que ocorreram em um período mais recente”, observa. 

Primeira eleição municipal

Até a década de 1930 as eleições se dão em partido único, não há um pluripartidarismo, ou seja, são os partidos republicanos. Então, em Santa Catarina, é o Partido Republicano Catarinense e todas as disputas são dentro deste partido. Por exemplo, em âmbito estadual, até os anos 20, o Partido Republicano era controlado por Hercílio Luz e Lauro Müller. “O Lauro Müller era o que nomeava quem seria o deputado federal, senador e Hercílio Luz nomeava quem seriam os deputados estaduais e os prefeitos”, detalha.


Na primeira eleição de Criciúma votavam somente homens alfabetizados, então grande parte da população era excluída. “Durante a primeira república, a participação era muito reduzida. Os votos funcionaram por meio de uma ata, sendo bastante fraudulentos. Somente a partir do final dos anos 20 que começa a ampliar a disputa. Só na eleição presidencial de 30 há uma ruptura do partido republicano e se cria uma aliança liberal, criando o Partido Liberal, que lançou o Getúlio Vargas como presidente da República”, reitera. 

Cidades em que cada prefeito de Criciúma nasceu. (Arte: Portal Engeplus)

Etnias importantes no processo

Segundo o professor, a história aponta para duas forças que contribuíram para o desenvolvimento de Criciúma até 1930. A primeira delas ressalta o papel dos imigrantes europes na construção da cidade. A outra é a mineiração, que foi responsável por impulsionar o município e que até hoje é lembrada em diferentes símbolos criciumenses, como os monumentos, os times de futebol e o hino. O crescimento, porém, fez surgir novos atores.


“Em um certo momento você tem uma perspectiva de um grupo étnico mais evidente, especialmente os italianos. Mas em um período mais recente buscou-se construir uma cidade multiétnica que começa com a festa da Quermesse e depois virou a Festa das Etnias. Iniciou com os descendentes de imigrantes de alguns países europeus e depois vai se incorporando outras etnias, como espanhóis, árabes e negros. Criciúma é uma cidade muito plural em relação a sua composição étnica. Essa questão também está enfatizada em monumentos, como o monumento na Prefeitura de Criciúma, chamado de cinco dedos. Na verdade, não são cinco dedos, são pilares que depois vão deitando. O primeiro representa os italianos, depois alemães, poloneses, luso-brasileiros e negros”, observa. 

Monumento está localizado no Parque Prefeito Altair Guidi Criciúma. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

Desafios sociais e econômicos enfrentados pela população na época

Criciúma era uma região com predomínio da agricultura. Tinham pequenos comerciantes, mas o ponto econômico principal era a produção agrícola, até a chegada do carvão. E toda atividade produzida pelos colonos era escoada para outros centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Uma das atividades era a produção de banha. “Os colonos engordavam os porcos, vendiam para as fábricas de banha e era mandada para o Rio de Janeiro ou para São Paulo. Além da banha, outros produtos como farinha de mandioca, cachaça, que eram escoados e vendidos para o Sudeste, sendo escoados no Porto de Laguna”, explica o professor.


Para exportar esses produtos não era uma tarefa fácil. Chegar ao Porto de Laguna exigia esforço. “Os produtores enchiam uma carroça e iam até Jaguaruna, onde tinha um mini porto, chamado ‘Pontão’. No local, eles colocavam os produtos em barcos que eram levados até o Porto de Laguna e lá escoavam até o Rio de Janeiro. Então, era uma dificuldade muito grande para os colonos”, conta.


A mineração transformou essa realidade. Em 1922, por exemplo, a ferrovia chegou em Criciúma e o carvão, que era inicialmente carregado em carroças, passou a ser transportado pelos trilhos. “É claro que as primeiras malhas ferroviárias são do século XIX, que liga o Porto de Laguna até Lauro Müller, pois foi em Lauro Müller que foram encontradas as primeiras levas de carvão”, comenta.


Posteriormente, com o contexto da Primeira Guerra Mundial, o carvão em Criciúma começa a ser explorado. “Em 1922, vem a primeira malha ferroviária para a região, onde o carvão e outros produtos começam a ser escoados até o Porto de Laguna e depois também em Imbituba, já que começa uma disputa de portos. A mineração e a ferrovia facilitaram e contribuíram para escoar a produção e o transporte de mercadorias. Inicia-se, portanto, um movimento que estabelece um novo perfil econômico ao município com mineração, comércio e agricultura”, frisa. 

Mudança de nome

A malha ferroviária provocou até alteração no nome da cidade. Inicialmente, o município era chamado de Cresciúma, em virtude do abundante capim Kyruy-Syiuâ, termo Tupi que dá nome para a planta encontrada na região. O escritor e historiador Archimedes Naspolini, em pesquisa realizada para a Câmara de Vereadores de Criciúma, recorda que a grafia foi ajustada por uma iniciativa unilateral do agente da Estrada de Ferro que, não tendo interpretado o texto de um decreto do presidente Getúlio Vargas, fez a troca para diferenciar de outra estação da malha ferroviária brasileira.

Charge ilustrada por Santiago Olipe















Política

A 'Linha do Tempo' da política criciumense

O centenário político-administrativo de Criciúma também remete à lembrança de fatores e personagens marcantes da política municipal. Antes mesmo da emancipação, mas principalmente após, o desenvolvimento da cidade se deu com o surgimento de nomes que se tornaram populares em cargos de liderança e gerência. 


O jornalista Antonio Colossi, da Rádio Eldorado, passou a acompanhar o cenário político atuando na profissão nos anos 2000, porém, a busca pelo conhecimento do contexto histórico surgiu ainda antes de exercer sua função de informar à população. O profissional que apresenta o quadro ‘Linha do Tempo' na emissora, recorda, com base em estudos, como foi o surgimento da política em Criciúma, após a emancipação político-administrativa. 


Os primeiros pleitos eleitorais na cidade foram na década de 1950, com a política local influenciada por partidos tradicionais.

As marcas da década de 1970 e os grandes nomes em 1980

De acordo com Colossi, os anos 1970 marcaram uma transição da cidade de Criciúma, que deixou de ser rural para ser tornar urbana, sob o comando de Algemiro Manique Barreto. “O Algemiro fez um trabalho belíssimo nesse sentido. Inclusive no dia 18 de setembro é a inauguração da rodoviária, uma das grandes obras da cidade. Ele, que também desenvolveu a avenida Axial (hoje avenida Centenário), tirou o trilho do trem desse segmento que fazia parte da avenida”. A gestão de Barreto foi sucedida por Altair Guidi, que ficou seis anos à frente do município. 


O jornalista conta que em 1982 o pleito eleitoral foi diferente, pois os votos dos cidadãos elegeram cargos de vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente. Em Criciúma, José Augusto Hülse, candidato do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) venceu a eleição para governar a cidade.


Para Colossi, uma das eleições marcantes foi a de 1988, a primeira a qual o jornalista acompanhou efetivamente. A disputa pelo governo municipal trouxe como concorrentes o então deputado federal Eduardo Pinho Moreira, o ex-prefeito Altair Guidi e Milton Mendes, que já havia sido vereador na cidade. “Foram personagens importantes, que fizeram a história da política de Criciúma. Guidi ganhou aquela eleição, que foi acirradíssima. E foi uma eleição também diferente das de hoje, que você tinha que ficar vários dias esperando para saber o resultado. Tinha que contar votos, pois na época não havia urna eletrônica”, recorda. 

A política não foi influenciada pelo futebol 

Campeão da Copa do Brasil como presidente do Criciúma em 1991 e com uma participação histórica na Taça Libertadores da América no ano seguinte, Moacir Fernandes, o gestor mais vitorioso da história do Tigre, não conseguiu transferir a popularidade futebolística para as urnas em um pleito eleitoral municipal. Ainda em 1992, o ex-presidente carvoeiro concorreu ao cargo de prefeito e sofreu a derrota para Eduardo Pinho Moreira. “Moacir Fernandes estava em um momento espetacular de sua vida pessoal e profissional”, comenta Colossi.


A gestão de Moreira não teve sequência em 1996, pois na época não havia a possibilidade de reeleição. Com isso, Paulo Meller foi soberano nas urnas e venceu com vantagem a disputa pela prefeitura.

Moacir Fernandes (de boné) é recebido por dirigentes do Bolívar, em La Paz, antes de jogo da Libertadores, em 1992. (Foto: Acervo pessoal)

Os problemas dos anos 2000 e o surgimento de um grande nome

Se Criciúma continuava crescendo no início do novo milênio, o cenário político da cidade começava a passar por crises. Gestões interrompidas por problemas jurídicos, montagens e desmontagens de gestões em prazos curtos e o surgimento do nome de Clésio Salvaro na política criciumense foram os grandes marcos dos últimos 25 anos do centenário municipal, na avaliação de Colossi.

A política eleitoral segmentada para os próximos anos

O jornalista acredita que o município terá nos próximos anos uma política segmentada, com nomes que já fazem parte do cenário atual e continuando à frente da gestão da cidade. “Creio que em um curto prazo ainda esteja segmentada. A gente tem políticos que são extremamente experientes na política estadual que ainda têm influência em municípios, deixando isso ainda vinculado à política tradicional, que muitas vezes impede uma renovação efetiva”, observa Colossi.

Criciúma é moldada e construída por líderes políticos 

A política de Criciúma foi e segue sendo moldada por pessoas influentes. Boa parte delas não nasceu na terra do carvão. Elas vieram para a cidade por motivos pessoais ou profissionais, se estabeleceram como cidadãos criciumenses e colaboraram para a história centenária do município. Um desses personagens foi Eduardo Pinho Moreira, eleito como prefeito de Criciúma em 1992. O médico cardiologista nasceu em Laguna, em 1949.


A história de Moreira na política teve incentivo familiar. Seu pai Hindemberg Moreira, nascido em Minas Gerais, presidiu na década de 1950 o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). A família do então adolescente Eduardo se mudou para Juiz de Fora (MG) em 1962.


Na época, o tio de Moreira, um dos fundadores do PMDB, concorreu a prefeito no município mineiro, em 1966, em uma eleição diferente dos dias atuais. “Ele foi contra três candidatos da Arena, na época se dava por sub-legenda, se somava os votos dos candidatos do partido. Como meu tio estava sozinho, foram buscar outro para ser companheiro dele e foi onde surgiu Itamar Franco (anos depois se tornou presidente do Brasil), que acabou sendo candidato e se elegeu prefeito de Juiz de Fora em 1966. Eu tinha 16 anos e entregava os santinhos do meu tio e aí houve o interesse pela política”, relembra Moreira. 

A medicina que o trouxe à Criciúma 

Apesar de ter origens familiares políticas, Moreira inicialmente optou pela medicina para seguir sua vida profissional e chegou em Criciúma por meio da profissão no início de 1975, ano em que a cidade comemorava os primeiros 50 anos de emancipação político-administrativa. O convite para vir ao município foi por meio do cunhado, Realdo Guglielmi, após o médico concluir especializações em Medicina do Trabalho e Cardiologia. 


“Quando cheguei, éramos 32 médicos, hoje tem próximo de mil. Cardiologista só tinha em Tubarão e Criciúma, o resto do Sul do estado não tinha mais, entre Porto Alegre e Florianópolis. Era um trabalho muito intenso e acabei ficando em Criciúma, casei, meus quatro filhos nasceram na cidade e a tenho no coração até hoje e sou torcedor fanático do Tigre”, destaca Moreira, que hoje reside em Florianópolis. 


Moreira recorda que a vida na política criciumense iniciou por meio do trabalho que fazia nos Sindicatos dos Mineiros e dos Agricultores. “Meu nome acabou ficando forte na região e em 1986 fui convencido a ser candidato a deputado federal. Meu cunhado era um dos incentivadores do PMDB, ninguém entendia como um grande empresário era de um partido de centro-esquerda, contra a Arena, um partido de direita. Ele participou desse processo e acabei sendo candidato, saindo pela primeira vez do consultório médico para ser deputado federal constituinte e assim começou minha carreira”, conta.

Moreira assume o município e deixa legados

Como recordado por Colossi nesta matéria, Moreira venceu Moacir Fernandes nas eleições de 1992 e assumiu a prefeitura da cidade no ano seguinte. A gestão que se estendeu por quatro anos deixou legados para a cidade e para a vida política do cardiologista. Ele fala sobre as marcas que deixou como chefe do Poder Executivo criciumense. 

Após comandar o município pela eleição de 1992, Moreira voltou ao pleito eleitoral em Criciúma em 2000, mas acabou sendo derrotado nas urnas por Décio Góes. Dois anos depois, elegeu-se vice-governador de Santa Catarina, com Luiz Henrique da Silveira comandando o estado. No segundo semestre de 2006, o médico tomou posse do governo estadual até o fim do ano.


Nas eleições de 2010 e 2014, voltou a ser eleito vice-governador, dessa vez com Raimundo Colombo encabeçando a chapa. Em abril de 2018, Moreira voltou a assumir efetivamente o cargo de governador de Santa Catarina, até o fim do ano. 

Mesmo estando em uma esfera política mais ampla, o cardiologista afirma ter conseguido ajudar no desenvolvimento da cidade. Um dos fatos marcantes, segundo o político, foi a criação da Via Rápida, viabilizada enquanto governou o estado em 2006. “O Hospital Materno Infantil Santa Catarina (Hmisc) foi na minha gestão como governador em 2018, foi uma decisão minha. Falei para o Acélio Casagrande (secretário de Estado da Saúde na ocasião) que era a função dele principal viabilizar o hospital. Me orgulho muito em poder ter ajudado a cidade”, comenta.


Distante das urnas e sem pretensão de retornar aos pleitos eleitorais como candidato, Moreira segue acompanhando o cenário político estadual e local, participando de processos internos partidários. Com base em tudo o que viveu na política, desde o acolhimento na chegada à cidade em 1975, o cardiologista acredita que Criciúma está aberta para seguir recebendo pessoas que não nasceram na terra do carvão, mas que podem transformar suas vidas no município.


“É uma Criciúma de todos. Foi uma cidade que cresceu muito e construída por pessoas que vieram de fora. Hoje os profissionais da área da saúde, por exemplo, a minha área específica, eu vejo ser filhos daqueles que vieram para o município. O doutor Albino José Souza veio de fora, mas o filho dele é pneumologista, seguiu os caminhos do pai e é criciumense. Esse é um exemplo. Então nesse sentido, Criciúma é uma cidade de todos”, garante.

Abrindo portas em Criciúma

Quem também marcou história na política de Criciúma foi Dizelda Coral Benedet, natural de Nova Veneza. Ela chegou na cidade após crescer em São Joaquim (SC) e Ivatuba (PR), onde conheceu seu marido criciumense e decidiram voltar para o Sul de Santa Catarina.


Além de precisar buscar seu espaço por não nascer na cidade, a neo-veneziana precisou encarar outra dificuldade na época: derrubar barreiras por ser mulher. E assim fez. 


Na eleição de 1982, Dizelda foi eleita a primeira vereadora mulher em Criciúma. O sucesso nas urnas foi obtido após a chegada na cidade, onde desenvolveu trabalho sociais de grande impacto, principalmente no Bairro da Juventude. “Eu e outra senhora fomos candidatas. Consegui me eleger pelo trabalho que fiz, atendendo as pessoas de uma forma muito eficiente. E fui a vereadora mais votada de todos os candidatos na época, além de ser a primeira mulher”, lembra.

Dizelda exibe quadro de quando era vereadora em Criciúma. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

Após ser eleita vereadora, Dizelda recebeu o convite do então prefeito José Augusto Hülse para criar e assumir a Secretaria de Saúde de Criciúma. Apesar da resistência em aceitar a proposta, a neo-veneziana acabou se tornando a primeira secretária de saúde no município. “Chegou o momento que tive que aceitar o cargo para auxiliar a sociedade criciumense. Criamos a secretaria e uma estrutura com três departamentos, sendo eles de saúde, assistência social e habitação”, lembra. 

As ex-vereadora e secretária recorda ainda que as vivências, principalmente no Bairro da Juventude, auxiliaram no desenvolvimento dos projetos que marcaram o município em áreas importantes, como na saúde. “Isso foi me dando oportunidade para que eu tivesse uma visão ampla de como o município poderia desenvolver de uma forma organizada e estruturada. Fui uma das fundadoras da Associação Feminina de Assistência Social (Afasc). A importância disso era atender as mães nos bairros, orientá-las e que elas tivessem mais informações e compreensão para aceitar orientações sobre os filhos”, destaca.


Depois de tantas lutas pessoais para poder auxiliar o município, Dizelda destaca o orgulho em poder ajudar no desenvolvimento da cidade. “Quando me reporto às atividades que já desenvolvi, penso que como cidadã criciumense cumpri meu papel de auxiliar a comunidade. Hoje me sinto orgulhosa em saber que o município vai fazer 100 anos de emancipação”, frisa.


Em 2002, Dizelda recebeu o título de Cidadã Honorária de Criciúma, honraria concedida às pessoas que não nasceram na cidade, mas que deixaram um legado no município. “Criciúma representa para mim um espaço extremamente afetivo, carinhoso e com um grande potencial, que pode continuar desenvolvendo cada vez mais”, observa. 













Economia

A força da diversidade que construiu a economia

Criciúma, desde os primórdios, foi construída por diferentes. Basta revisitar o início desta reportagem para lembrar que, para chegar onde está, o município foi moldado inicialmente por diferentes etnias. Pelas mãos dos imigrantes foram planejadas as primeiras comunidades, casas, ruas, igrejas. Na economia, não foi diferente. Os “estrangeiros” expandiram o comércio, descobriram o carvão e diversificaram os setores produtivos.


A abertura de minas de carvão foi a primeira atividade a se destacar. A exploração do minério fez Criciúma se alavancar como polo de geração de emprego e renda. Com tantas oportunidades, não demorou muito para o município tornar-se destino de novos imigrantes interessados em ganhar dinheiro no subsolo.


“Por conta do destaque da mineração, a população de Criciúma dobra a partir da década de 1940 e com isso atrai uma imigração muito grande para a cidade de dois tipos de imigrantes: um que vem para trabalhar no subsolo das minas e também pessoas para comandar as minas”, recorda o professor doutor do curso de História da Unesc, João Henrique Zanelatto.


Este movimento fez fluir a chegada de outros imigrantes, que não precisaram viajar tão longe quanto os colonizadores criciumenses para conhecer aquele município do Sul de Santa Catarina que estava despontando, principalmente na oferta de mão-de-obra. “Primeiros vieram os europeus lá no início do século. Mas depois, entre os anos de 1920 e 1940 a imigração passou a ser mais próxima. Pessoas de outros municípios da região vinham trabalhar na mineração”, acrescenta o historiador.

Do carvão veio a diversificação econômica

A partir da década de 50, as mineradoras seguiam como a principal atividade econômica em Criciúma, mas passaram a dar espaço para novos setores. “Começa a surgir um processo de diversificação econômica, com o aparecimento do setor cerâmico, metalúrgico, posteriormente o vestuário e os químicos”, elenca Zanelatto.


É nesse período que Criciúma deixa de ser somente um atrativo para quem procura emprego e desperta a atenção também de “migrantes empreendedores”. Como fizeram Giácomo Sônego, Marcos Rovaris, João Zanette e Gabriel Arns antes e depois da emancipação criciumense, outros empresários visionários apostaram no solo do carvão para prosperar seus negócios.


Esse movimento fez Criciúma modificar a sua matriz econômica e o Anuário Estatístico e Econômico de Criciúma, publicado pela Associação Empresarial de Criciúma (Acic), confirma isso. Os números foram divulgados em maio de 2025 e consideram os indicadores de 2023. No ano, entre empresas registradas no município, 9.159 faziam parte do setor de serviços, 4.590 do comércio, 1.699 da indústria, 1.127 da construção e 121 da agropecuária.

Número de empresas por setor - 2023

Números de empresas por setor - 2023 (Gráfico: Portal Engeplus)

Informações compiladas pela Secretaria de Estado da Fazenda de Santa Catarina (SEF) e disponibilizadas pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Criciúma mostram que a indústria correspondia a mais da metade do valor adicionado no município. Logo atrás estão comércio, serviços, produção primária e indústria extrativa. 

Entre os setores que expandiram com a desaceleração da exploração do carvão no subsolo criciumense está a construção civil. Conforme dados do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Sul Catarinense (Sinduscon Sul Catarinense), o setor empregava 4.392 trabalhadores em Criciúma conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de julho de 2025.


Assim como a mão de obra migrou, o crescimento de Criciúma proporcionou a atração de empresas. Fundada em Urussanga, a Construtora Fontana iniciou sua trajetória realizando obras públicas, em 1986. Anos depois, a marca apostou na construção de prédios residenciais e a mudança de rota deu certo, com o mercado criciumense tendo papel fundamental em seu desenvolvimento.


Valor adicionado por segmentos em 2023 – Participação (%) sobre o total

Valor adicionado por segmentos em 2023 – Participação (%) sobre o total

(Gráfico: Portal Engeplus)

Em 1989 construtora fez seu primeiro prédio em Criciúma. Depois, construiu outro em Urussanga enquanto aplicava dinheiro na compra de lotes na capital do carvão. Até que na década de 90 a empresa se instalou de vez em Criciúma.


“Analisamos o mercado para ver o que realmente era viável. Vimos que Criciúma tinha um crescimento diferenciado. Inicialmente, mantivemos a nossa sede em Urussanga e começamos a investir em Criciúma. Primeiro abrimos um escritório pequeno, depois ampliamos e em 2011 inauguramos a nossa sede atual. E daqui, começamos a expandir a nossa atividade para outras regiões como Joinville, Florianópolis, Laguna, Porto Alegre (RS) e nas cidades vizinhas da região”, lembra o empresário e proprietário da Construtora Fontana, Olvacir José Bez Fontana

Empresário é de família urussanguense e escolheu Criciúma para instalar e prosperar a sua empresa. (Foto: Divulgação)

Atualmente a marca da construtora faz parte do cenário de Criciúma. No município, surgiram os primeiros prédios que, mais tarde, ganharam também espaço em cidades vizinhas e regiões do estado. “As pessoas que vêm para Criciúma, vêm para trabalhar, empreender e ajudar a desenvolver o município. É uma cidade aberta para os imigrantes, feitas para as pessoas de cidades vizinhas que se transferiram para cá e colaboram com o crescimento e também com o desenvolvimento do município. As pessoas que moram aqui são focadas em resultado e nos valores empresariais, que é fazer a economia crescer, fazendo com que todos sejam beneficiados”, ressalta Fontana.



São aproximadamente mil vagas de emprego diretas e indiretas geradas pela construtora. Na avaliação do empreendedor do ramo da construção civil, a onda de imigrantes continua. “Criciúma cresce por dois segmentos: os que nascem aqui e os que vêm de fora para trabalhar aqui. Hoje não são pessoas somente de cidades vizinhas, são de outros estados e de outros países. Santa Catarina é o principal destino deste público. Foi o estado que mais recebeu essas pessoas nos últimos anos por conta da economia, da segurança e padrão de vida. E Criciúma é exemplo disso. São muitas pessoas que habitam aqui e que adotaram o município como sendo seu”, destaca.

Estrangeiros empregados e empreendedores

Frito Laguerre é tio de Moise Kervens Laguerre. Haitianos, os dois escolheram o Brasil, mais especificamente Criciúma, para realizar um sonho: serem empreendedores. O tio chegou em solo brasileiro em 2017. Laguerre dois anos depois, em 2019.


Dispostos a deixar para trás o conturbado momento político do país de origem, os dois construíram no Sul de Santa Catarina uma nova vida. Vieram em busca de trabalho. Mais tarde trouxeram parte da família para perto e hoje miram em um futuro onde possam viver somente do próprio negócio.


Para Moise é a segunda tentativa de trabalhar por conta própria. Primeiro tentou abrir um restaurante de comida haitiana. A ideia, que ainda segue no planejamento, não deu certo em um primeiro momento e os dois resolveram unir a experiência no ramo gastronômico para fundar o Borussia Lanches e Pizza, no bairro Santa Bárbara.

“É o nosso sonho. É o caminho para termos uma vida melhor para a nossa família. Foi para isso que saímos do nosso país e viemos para cá. Trabalhamos em outro emprego para manter este estabelecimento aberto. Temos que lutar, porque para ter um sonho você precisa batalhar para alcançar”, frisa Moise.


Para tocar o negócio, os dois se revezam entre o trabalho e a vida empreendedora. Frito coordena a cozinha de outra pizzaria do município. Ele vai até o seu emprego durante a tarde, prepara as massas que usará no atendimento aos clientes e, logo depois, faz o mesmo na sua pizzaria, onde também organiza os demais ingredientes. À noite retorna ao estabelecimento onde é contratado.

 Empreendedor aposta nos detalhes para tornar as opções do cardápio mais atrativas aos clientes

É aí que entra Moise. Durante o dia ele é auxiliar de padeiro em uma rede de supermercados e à noite comanda a pizzaria e lancheria ao lado da tia Nanotte Laguerre (esposa de Frito). Ela é responsável pela montagem do tradicional x-salada, que também faz parte do cardápio.


A jornada, como a de qualquer outro empreendedor, não é fácil. O movimento ainda não é o esperado, mas também já foi pior. “O sonho continua dando trabalho, mas, se Deus quiser, nós vamos alcançar”, confia Moise. “Mas aos poucos o movimento está aumentando, notamos isso. Teve uma pessoa que postou um vídeo nosso na internet e isso já ajudou. E somos preocupados com a qualidade do nosso produto. Queremos manter o padrão sempre para que cada pessoa que vem aqui possa indicar e assim vamos crescer”, acrescenta Frito.

A Criciúma que todos querem

Se para um brasileiro os desafios do empreendedorismo são constantes, para quem vem de fora as dificuldades são ainda maiores. A distância da família, os preconceitos, a adaptação ao idioma e a cultura da nova vida. Tudo isso precisa ser superado com ainda mais esforço.


“O que buscamos é respeito. Infelizmente vivemos algumas situações não tão boas. O que queremos é respeito, que é mais importante do que o dinheiro. Uma vez, por exemplo, eu troquei de emprego para receber metade do salário que eu ganhava porque fui desrespeitado. Nós, estrangeiros, não negamos trabalho, mas não queremos desrespeito”, coloca o sobrinho.


É por isso que eles preferem focar no que é positivo. Em Criciúma foram bem recebidos. Escolheram o município para morar pela qualidade de vida e segurança e querem, com o sonho de empreender, contribuir para o crescimento da cidade que habitam, gerando renda e até empregos.


“Hoje a nossa família é quem faz tudo na nossa empresa. Quando precisamos, temos uma pessoa que nos ajuda. E queremos cada vez mais poder crescer e gerar emprego. Se a gente crescer, quero respeitar meus funcionários, porque é isso que buscamos aqui como estrangeiros que trabalham”, diz Frito.

Frito colocando uma das suas pizzas para ser assada no Borussia Lanches e Pizza

Afinal, em Criciúma os Laguirre encontraram um bom lugar para continuar escrevendo a história que iniciaram no país da América Central. “Criciúma, na minha avaliação, é o melhor lugar para se viver. Eu já fui para outros locais como São Paulo, mas não é tão seguro e tranquilo quanto aqui. O custo de vida é, sim, alto. Mas pretendo investir aqui o quanto eu puder. É um município onde o povo gosta das pessoas. E aqui quero crescer, realizar o sonho de voltar a ter meu restaurante haitiano para as pessoas conhecerem mais a nossa comida”, pontua Moise.


Conhecer novos locais é o que almeja também Frito. “Desde quando cheguei aqui, eu só trabalho. É por isso que penso em ter meu próprio negócio, para dar melhor condição para minha família, comprar um carro e levar eles para passear. Não preciso de muito, só um pouquinho para viver”, completa o empreendedor.

Criciúma de quem produz e que é acolhedora

Mas é claro que nenhum setor econômico avança sem a força da mão de obra do trabalhador. E, em Criciúma, os verdadeiros responsáveis por fazer a roda da economia girar trabalham unidos e em busca de um mesmo resultado: transformar o município em um local cada vez melhor para se viver.


Cleiton Velho Cardoso Matheus Nogueira Colen possuem muitas coisas em comum. Os dois são engenheiros civis. Trabalham na mesma empresa, onde desempenham a mesma função. São eles os responsáveis pela execução das obras para que tudo saia conforme o planejado.


A diferença principal está na naturalidade. O primeiro é criciumense. Como dizem por aí, “bebe da água do carvão” desde o nascimento. O outro é filho de pais naturais de Minas Gerais, nasceu em Diadema (SP) e em 2023 aceitou uma proposta para trabalhar no Sul de Santa Catarina.


Outro ponto em comum entre os engenheiros está na opinião sobre Criciúma. “Aqui tem qualidade de vida. É uma cidade de menor porte, mas que tem tudo. Tem tranquilidade, segurança, boas pessoas. Sendo bem bairrista, nós somos a Europa do Brasil”, opina Cardoso.

Nascido e crescido em Criciúma, Cleiton Velho Cardoso fez no município a maior parte da sua trajetória na construção civil

“Em São Paulo eu demorava, no mínimo, duas horas para sair do trabalho e chegar em casa. Aqui em Criciúma a qualidade de vida é outra. Moro a cinco minutos do meu trabalho. Consigo acordar de manhã, tomar o meu café com calma. Durante a semana tenho a minha rotina de ir para a academia, jogo bola. Eu já morei na Austrália e a segurança de lá é equivalente aqui. A qualidade de vida, com certeza, foi o principal fator que me atraiu para cá”, confirma Colen.


É uma via de mão dupla. Quem quer estar em Criciúma para viver bem, quer que o município esteja bem. E a cidade acaba se beneficiando dessa mistura produtiva. Com a mão de obra cada vez mais escassa, quem é daqui busca se qualificar para ter o reconhecimento esperado sem precisar abandonar a terra natal. Quem vem de fora também precisa batalhar para preencher com qualidade as vagas disponíveis e, às vezes, carrega consigo a experiência capaz de agregar no novo emprego.


“Tenho colegas de empresa que vieram de São Paulo. Lá estão as principais construtoras do país. Muitas vezes essas pessoas vêm para cá com uma visão diferente. Aqui, queremos ser referência no nosso setor. Lá eles conviveram em empresas que já são referência para o país e isso contribui para o nosso trabalho”, analisa o criciumense.


Por outro lado, a responsabilidade de entregar um trabalho com ainda mais excelência recai sobre quem vem de fora. “Eu trabalhava em uma construtora em São Paulo que é uma das maiores do Brasil e, ao mesmo tempo, tinha muitas concorrentes. Aqui é uma empresa mais local, mas que, ao mesmo tempo, tem muita representatividade na região. As pessoas moram aqui pela qualidade de vida. Vim para cá por isso. E nós trabalhamos para proporcionar qualidade de vida para nossos clientes, então precisamos atender as expectativas”, fala o paulista.


Essa diversidade de trajetórias e origens é o que dá o tom da Criciúma atual. Pessoas de diferentes estados, cidades e países se encontram diariamente no município, unindo culturas, costumes e histórias que se entrelaçam no trabalho, no economia, no lazer e em tantas outras áreas. A soma dessas experiências fortalece a identidade da cidade e reforça seu papel como um polo de oportunidades no Sul catarinense.

Matheus Nogueira Colen, o paulista que escolheu Criciúma para mudar sua qualidade de vida

Mais do que um mosaico cultural, Criciúma é também um espaço de convivência que se reinventa com a chegada de novos moradores. Essa mescla entre o nativo e o imigrante impulsiona ideias, gera inovação e contribui para um ambiente acolhedor, onde diferentes sotaques e tradições caminham lado a lado. É essa pluralidade que sustenta a força econômica e social do município.













Esporte

O futebol e sua contribuição com o processo de construção da cidade

E não é somente na economia e no empreendedorismo que essa diversidade se expressa. O esporte também se tornou palco dessa integração, reunindo pessoas de várias origens em torno da paixão por competir e torcer. Seja no futebol, nas quadras ou em modalidades individuais, Criciúma mostra que o talento não tem fronteiras e que a cidade é capaz de transformar diferenças em união.


Além de disseminar o amor pelo futebol, o esporte fez com que a cidade crescesse, ganhasse notoriedade e se tornasse casa para muitas pessoas que por aqui chegaram para atuar direta ou indiretamente em clubes do município. 


A cidade de Criciúma também é conhecida no cenário nacional e internacional pelo futebol. Impulsionado pela paixão que aflora no peito de milhares de brasileiros, o município já celebrou grandes conquistas por meio dessa prática esportiva. 


Atualmente, o único time profissional em exercício carrega o nome da cidade e suas origens. O Criciúma Esporte Clube, também conhecido como time carvoeiro, arrasta consigo um dos principais fatores de desenvolvimento do município. Mas o Tigre não foi o primeiro time criciumense a carregar essa marca e acumular feitos históricos no futebol. Fundado no dia 15 de novembro de 1945, o Esporte Clube Metropol deixou de ser um clube amador após sua origem para se profissionalizar a percorrer o Brasil e o mundo. 


Originado pela então Carbonífera Metropolitano, o clube, que passou a ser chamado de ‘Carneiro’ anos depois, conquistou cinco títulos catarinenses na década de 1960 e realizou uma excursão histórica pela Europa em 1962, acumulando 13 vitórias, seis empates e quatro derrotas em 23 jogos, vencendo times como o Hertha Berlin, da Alemanha. 


Durante o processo vitorioso do clube, muitos atletas chegaram na cidade e permaneceram até o fim de suas vidas, formando famílias e contribuindo no desenvolvimento de Criciúma. Um deles foi Walter Henrique Souza (In Memoriam), popularmente chamado de Sabiá. 

Sábia com colegas de clube enquanto representavam o Metropol - Foto Arquivo pessoal

Criado em um abrigo em Florianópolis, o volante que fez sucesso no Carneiro recebeu uma proposta para jogar em Lauro Müller, aos 17 anos. Foi próximo à Serra Catarinense que o jogador conheceu a Pedra Belmiro Ribeiro, com quem criou seis filhos.


O mais velho herdou o nome e o apelido do pai. Walter Luiz Souza, atualmente com 66 anos, lembra como foi a chegada da família em Criciúma. “Aqui ele fez a história dele, jogou muito tempo no Metropol, estava naquela viagem para Europa, trabalhou na carbonífera. E tive a honra de vir para cá também. Minha mãe era de Lauro Müller e eles se conheceram lá. Ela engravidou de mim e quando me teve veio para cá e aqui eu me criei no meio dos jogadores”, relembra. 


Falecido em 2002, o volante do lendário time do Metropol, à época chamado também de Real Madrid Catarinense, foi o pioneiro da “Família Sabiá” na cidade e deixou seu legado, que foi seguido por seus filhos e netos. Sabiá tem lembranças de como era a rotina em Criciúma e conta um fato inusitado. 


O filho, Walter, herdou do pai não somente o nome, mas também o talento e a paixão pelo futebol. Desde muito jovem, mostrava uma afinidade natural com a bola, encantando quem o via jogar nas peladas de bairro.

A maneira como conduzia o jogo, a leitura rápida das jogadas e o espírito competitivo lembravam, em muitos momentos, o velho Carneiro em seus tempos de glória. Era como se a essência do pai estivesse presente em cada passe, em cada arrancada, em cada gol. No entanto, o destino, sempre imprevisível, decidiu traçar um caminho curioso para o jovem “Sabiá Filho”. Em vez de seguir os passos do pai e defender as cores do mesmo clube que transformara Carneiro em uma lenda local, foi justamente no time rival que Walter encontrou sua oportunidade de brilhar. A princípio, a escolha causou estranhamento entre os torcedores mais antigos, mas o talento do atleta logo falou mais alto.

“O pai também chegou a jogar no Comerciário. Era uma oportunidade, pois o Metropol já tinha parado. Lembro que o pai falou ‘eu sonhava em te ver vestindo uma verdinha e agora está de azul’. Mas mesmo assim ele me incentivou, pois queria que eu desse continuidade”, recorda.

Walter Sabiá (o último em pé da esquerda para direita) com a camisa do comerciário

Depois do Tigre, Sabiá passou ainda por clubes de Goiás, Paraná e Santa Catarina. Ao retornar para Criciúma, o jogador trocou a grama pela quadra e também ficou conhecido no município, aos 26 anos, jogando futsal. Apesar das voltas que deu no esporte, o ex-atleta nunca deixou de lado a paixão pelo Carneiro e sonha que o clube volte a ativa para auxiliar no crescimento da cidade.


“Não é proibido sonhar. Espero que um dia apareça alguém aqui, veja a estrutura que tem o campo, dê uma arrumada, e monte o Metropol e toque para frente. Acho que não é um sonho só meu, mas de muita gente, de ver o clube voltar ao profissional”, pontua.  

O Próspera de Paulo Serrano 

Outro clube criciumense que “surgiu na classe operária, junto às minas de carvão”, como diz o seu hino, foi o Esporte Clube Próspera, que também carrega em sua história a origem carvoeira. Denominado de ‘Time da Raça’, a equipe prosperana foi fundada no dia 29 de março de 1946. 


Com três títulos estaduais, sendo dois da Série C (2005 e 2018) e um da Série B (2020) do Campeonato Catarinense, o Próspera atualmente não disputa nenhuma competição profissional. Em 2022, o Time da Raça chegou a disputar a Série D do Campeonato Brasileiro. 


O estádio Mário Balsini, palco de muitas disputas do futebol criciumense, receberia um jovem natural de São Joaquim, que veio para Criciúma aos 16 anos, em 1980, e se tornaria anos depois um dos principais nomes que já pisaram no local. Se chamar por Paulo Alencar de Lima, talvez nem o próprio Paulo Serrano o reconheça. O ex-volante lembra como foi apelidado ao chegar na cidade.

A trajetória de Serrano em Criciúma iniciou na base do Tigre. Em 1983, o então volante recebeu a oportunidade no time profissional e pôde atuar em 26 jogos daquela temporada. A alegria do jovem deu lugar a frustração no ano seguinte ao ser dispensado do clube.


Porém, nascia em 1984 a história de um ídolo prosperano e mais um “estrangeiro” solidificou sua vida em Criciúma. O vínculo de Serrano com o Time da Raça ficou marcado por atuações como jogador, técnico das escolinhas do clube, das categorias de base e até do profissional. E a trajetória só foi interrompida no período da pandemia de Covid-19, que iniciou em 2020 no Brasil. 


“Fiz de tudo no Próspera. Cortei grama do campo, pintei gramado, fui roupeiro, fui de tudo. Me sinto muito feliz e

honrado de ter feito tudo isso. Trabalhei muitos anos e conseguimos não formar muitos atletas profissionais, mas, sim, muitos cidadãos, pessoas de bem, que me agradecem até hoje. Chego a me arrepiar, por alguns dizem que fui até pai”, frisa Serrano. 


Atualmente, o ex-volante trabalha como técnico em uma escolinha de futebol de Criciúma. Ao ser indagado sobre mudar o apelido de Paulo Serrano por Paulo Criciúma, o profissional natural de São Joaquim pregou respeito ao xará Paulinho Criciúma, mas não escondeu que se sentiria bem, por tudo que já viveu na cidade.

Serrano passou a usar apenas o bigode por cumprir uma promessa após marcar um gol contra o Criciúma. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus) 

“Não quero tirar o nome de ninguém (risos), mas seria uma honra. A cidade me abraçou, fui muito feliz e trabalho até hoje aqui. Com certeza, Paulo Criciúma seria excelente, mas me sinto feliz também como Paulo Serrano, até pela homenagem do falecido Clésio Búrigo, que foi uma grande pessoa aqui da cidade também e um jornalista de alto nível. Mas se fosse essa homenagem, acho que não teria problema nenhum’, garante.  

Serrano em entrevista durante jogo do Próspera. (Foto Arquivo pessoal)

Um migrante que mudou a história do futebol criciumense e construiu família em Criciúma

Apesar da cidade ter conquistas relevantes e disputas históricas em Santa Catarina com mais de um clube, o futebol criciumense passou a solidificar após a mudança de nome do Comerciário Esporte Clube para Criciúma Esporte Clube, em 1978, no intuito de abranger a paixão dos munícipes pela agremiação. De lá para cá, mais de 1,3 mil jogadores já vestiram a camisa carvoeira, sendo que muitos deles vieram de fora.


Em 78 anos de história, o Tigre coleciona 12 títulos da elite do futebol catarinense, uma Série C e uma Série B do Campeonato Brasileiro, além da Copa do Brasil de 1991, maior conquista nacional de um clube de Santa Catarina. Neste feito, que deu vaga para a Libertadores de 1992, Idemar Ângelo Tomasi era o lateral-direito da equipe. 

Álbum de campeão da Copa do Brasil. (Foto: Arquivo pessoal)

Natural de Sarandi (RS), o ex-jogador herdou como apelido seu local de origem, ‘bebeu da água do carvão’ e nunca mais esqueceu. A carreira vitoriosa no estádio Heriberto Hülse e corrida foi dividida pelo lado profissional e familiar, com a criação dos três filhos, que nasceram em Criciúma. 


Além da contribuição para o clube e a cidade em campo, Sarandi já foi servidor do município na área do esporte e atualmente atua como comentarista em uma rádio da cidade, falando diariamente sobre o time que mudou sua vida. Apesar dos compromissos profissionais, a rotina do ídolo carvoeiro é considerada por ele mesmo um pouco mais leve após a aposentadoria. 


“É diferente do que lá atrás. Tenho meus compromissos, mas gosto também de caminhar e pedalar na orla marítima e priorizar o lazer. Hoje grande parte da minha rotina é priorizada para isso”, destaca o ex-lateral, que também possuí residência em Balneário Rincão. 


Há mais de 30 anos em Criciúma, Sarandi acompanhou boa parte da evolução do município, mas ressalta que ainda sonha em ver um crescimento ainda maior. “Que a cidade consiga atender todas as demandas da população, em todas as áreas, não só no esporte. O desenvolvimento passa pelas pessoas, pela tecnologia, inovação. E que Criciúma consiga, dentro do que é possível, continuar evoluindo”, frisa. Sarandi fala também sobre a receptividade da cidade ao receber pessoas que vem de todos os cantos do Brasil. 

O tempero que só tem em Criciúma 

Assim como muitos atletas construíram suas carreiras longe de suas cidades, atuando em Criciúma, o criciumense Lucas de Oliveira fez o mesmo, só que o caminho foi inverso. Em 2021, o atleta iniciou sua trajetória em um projeto de futsal da cidade, quando abriu portas para uma carreira vitoriosa fora do país. 


Após passar pelas categorias de base em sua cidade natal, o jogador atuou profissionalmente em Siderópolis, em 2005, onde recebeu uma proposta para atuar no Catar. No país árabe, o criciumense ganhou mais que o apelido de ‘Habib’. Querido pela população local, o atleta se naturalizou como catari e defendeu a seleção do país. 

Habib jogando no Catar. (Foto: Arquivo pessoal)

Em dez temporadas no país árabe, o criciumense formou família e viu o nascimento do filho Caio, que em 2025 completa oito anos. Mesmo com uma carreira sólida e ao lado da esposa Camila Fernandes Moraes e do filho, Habib sonhava em retornar para a casa e atuar profissionalmente defendendo sua cidade.


“Sempre tive aquele sonho de voltar para poder defender a cidade novamente. Voltei no período pré-pandemia da Covid-19, onde mudou muita coisa no mundo do esporte, não foi nada que programei, mas tive a oportunidade de conhecer pessoas do bem, que me receberam na cidade e que estavam dispostas a retomar o futsal de alto rendimento’, lembra. 


Em 2023, Habib teve o sonho realizado. A convite do técnico Alexandre Verdieri, o atleta teve a oportunidade de jogar pelo Criciúma Futsal, na primeira competição profissional da equipe, após a retomada do time adulto. Foi no ginásio municipal Irmão Walmir Antônio Orsi que o atleta sentiu a emoção de comemorar gols e vitórias defendendo sua cidade. “Foi muito satisfatório. Costumo dizer que me sinto realizado em poder viver do futsal por esse tempo e encerrar minha carreira defendendo as cores da minha cidade, isso não tem preço”, ressalta. 

Habib comemorando gol na volta para Criciúma. (Foto: Fabrício Júnior/Arquivo ACF)

Atualmente Habib atua como técnico nas categorias de base e no projeto social do Criciúma Futsal. O profissional não renuncia a passar para as crianças e adolescentes os conhecimentos adquiridos na carreira como jogador e o quão bom é poder estar de volta em casa. Mesmo tendo a oportunidade de conhecer diversos países, culturas e pessoas de diferentes cantos do mundo, o agora ex-atleta não esconde que tem algo que só pode ser encontrado em Criciúma. 













Turismo

Do estádio Heriberto Hülse aos parques: primeiras movimentações turísticas

Além de serem importantes para o desenvolvimento da emancipação político-administrativa, o processo de colonização e as práticas da mineração também foram elementos importantes para dar o ‘pontapé’ inicial para as primeiras movimentações turísticas em Criciúma. Segundo o historiador e professor do curso de História da Unesc, Paulo Osório, a descoberta do carvão mineral durante o contexto da Primeira Guerra Mundial atraiu visitantes de outros estados ao município, que passou a ficar conhecido como a ‘Capital do Carvão’, a partir do século 20.


Na época, a maioria dos ‘turistas’ estavam ligados à prática de mineração, como empresários da indústria carbonífera e operários, que vinham em busca de trabalho nas minas de carvão de Criciúma. Porém, embora a movimentação turística tenha se fortalecido no entorno do carvão mineral, o município já atraia pessoas de fora desde a década de 1880, período em que passou por um contexto de imigração e colonização praticada no Sul de Santa Catarina.


“Embora já tivessem resquícios de práticas turísticas antes da mineração, foi por conta da descoberta do carvão mineral que Criciúma foi se constituindo e ganhando força como uma cidade historicamente turística. Dessa forma, as pessoas que visitam a nossa cidade conseguem perceber que a maioria dos monumentos está associado à mineração. Então, inicialmente, a maioria dos elementos mais atrativos que Criciúma proporcionava aos visitantes estavam ligados às práticas econômicas, como é o caso da Mina de Visitação Octávio Fontana”, explica.

 

Além da mineração, outros equipamentos responsáveis pela movimentação turística também estão ligados ao processo de colonização em Criciúma, como o caso do Museu Augusto Casagrande, no bairro Comerciário, ou a Casa do Agente Ferroviário Mário Ghisi, localizada no Centro de Criciúma. Entretanto, Osório afirmou que recentemente a Prefeitura de Criciúma vem investindo em novos equipamentos, sem qualquer ligação com determinado contexto histórico ou econômico. Alguns exemplos são o Parque Astronômico e o Mirante Realdo Santos Guglielmi, ambos localizados no Morro Cechinel e inaugurados em 2023. 

Uma forma de contar histórias 

Com a criação desses novos equipamentos turísticos, o diretor de turismo de Criciúma, Marcos Mendonça, projeta que o município está se tornando um ‘polo turístico’ regional, por conta dos investimentos em infraestrutura e da valorização cultural. Devido à criação de espaços como o Parque Astronômico e os três parques urbanos, Mendonça diz que à região carbonífera une ciência, história, natureza e lazer. Por conta disso, lembrar desses locais em um ano centenário, como em 2025, é celebrar a cultura e as raízes responsáveis pelo desenvolvimento de Criciúma.


“O turismo é uma forma poderosa de contar a história de um povo. Cada parque, museu ou ponto histórico é um capítulo vivo da nossa trajetória. Ainda estamos no início dessa caminhada, mas Criciúma tem tudo para crescer cada vez mais no turismo. Atualmente, também somos conhecidos no novo Mapa do Turismo Brasileiro, lançado pelo Ministério do Turismo, onde Criciúma figura entre os ‘Municípios Turísticos’”, ressalta. 


Assim como o diretor de turismo, a presidente da Fundação Cultural de Criciúma, Cristiane Uliana Zapelini, também destaca a importância de lembrar das pessoas, eventos e, principalmente, dos espaços que marcam a trajetória do município durante o ano do centenário de emancipação político-administrativa. Para Cristiane, é possível reconhecer e valorizar quem ajudou na construção de Criciúma ao longo dos seus 100 anos. 


“Ao reviver essas memórias, reafirmamos nossa identidade coletiva, fortalecemos o sentimento de pertencimento e expressamos gratidão com as pessoas que contribuíram para o desenvolvimento econômico, social, político e cultural do município. O Centenário é, sobretudo, uma oportunidade de homenagear o passado para inspirar o futuro”, observa. 

Vou para Criciúma, o que posso conhecer? 

Com base nos dados da Fundação Cultural de Criciúma, o município recebe em média 5 mil visitantes por mês somente no Mirante Realdo Santos Guglielmi, representando mais de 60 mil visitantes por ano apenas neste ponto turístico. Na maioria das vezes, os turistas são principalmente do Sul de Santa Catarina ou do Sul do Brasil. Entretanto, Criciúma também costuma receber pessoas de outros estados brasileiros e, até mesmo, de outros países. Todavia, além do complexo turístico do Mirante, o que mais as pessoas podem conhecer ao virem para Criciúma?


Para responder esta pergunta, o Portal Engeplus elencou cinco pontos turísticos, que podem ser considerados os principais e mais visitados de Criciúma, com base nas informações repassadas pelo diretor de turismo da Fundação Cultural de Criciúma. Confira abaixo quais são esses pontos turísticos e as suas determinadas localizações e horários de funcionamento: 

Além desses cinco pontos, Criciúma também tem outros equipamentos conhecidos e que podem servir como atratividade turística, como o Parque das Nações Cincinato Naspolini (bairro Próspera), o Museu Augusto Casagrande (bairro Comerciário), a Casa do Agente Ferroviário Mário Ghisi (bairro Centro) e o Parque dos Imigrantes (bairro Rio Maina). No entanto, determinados locais menos conhecidos também podem ser importantes espaços para serem visitados em Criciúma, como aponta o professor e historiador Paulo Osório.


“No Horto Florestal Municipal, no bairro Mina União, por exemplo, temos a casa da nona Maria Giovanna Milanese, que a sua residência também pode ser considerada um museu em Criciúma. Neste sentido, também temos a casa do artista plástico de Criciúma Edi Balodi, considerada um grande ateliê de arte e está situada na rua São José, na área central da cidade. Além disso, outro ponto turístico que pode ser um grande atrativo, é a rota da imigração, localizada no bairro Morro Estevão”, acrescenta o historiador. Independente de ser conhecido ou não, Osório comenta que cada equipamento, consegue se comunicar com a história e tem sua importância para o turismo em Criciúma.  

Um dos principais pontos turísticos de Criciúma

Dentre todos os equipamentos espalhados por Criciúma, a Mina de Visitação Octávio Fontana pode ser considerada um dos mais importantes, já que une a história com o fator turístico no município. Com base em um levantamento feito no último ano, o local recebeu mais de 17 mil turistas entre os meses de janeiro e novembro de 2024. Os visitantes vieram de 13 países e 17 estados brasileiros. Neste ano, somente entre janeiro e outubro, momento em que a matéria estava sendo produzida, o número ultrapassava 16,9 mil visitantes, formado por turistas e grupos de estudantes.


O coordenador do ponto turístico em Criciúma, Roberto Bortolotto, afirma que a meta para 2025 é bater os 22 mil visitantes registrados em 2022. Além de turistas curiosos e apaixonados por história, a maior parte dos visitantes da Mina de Visitação Octávio Fontana são formados, principalmente, por estudantes de geologia e também de mineração. A estrutura é reconhecida pela atratividade turística por ser conhecida como a única mina de carvão aberta para visitação pública espalhada pela América Latina e está entre as quatro do mundo. 


“Além da prática turística, a Mina de Visitação Octávio Fontana também é importante para a história de Criciúma, pois o carvão mineral foi a base para o desenvolvimento econômico do município, fornecendo os recursos necessários para que Criciúma se consolidasse como cidade polo da região carbonífera de Santa Catarina. Essa condição faz o município ser considerado uma meta turística natural, seja para estudantes ou visitantes apaixonados por história”, comenta o coordenador do ponto turístico.

Mina de Visitação Octávio Fontana foi inaugurada no dia 28 de outubro de 2011. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

História que começou há 15 anos

A ideia de criar uma mina de visitação aberta para turistas em Criciúma começou após o fechamento da antiga Mina São Simão, que passou a ser denominada futuramente como Octávio Fontana. O processo de construção iniciou em 2009, por meio de pesquisas e estudos que comprovaram que a estrutura era ideal e segura para abrigar e receber os visitantes do município. Com tudo finalizado e construído, a Mina de Visitação Octávio Fontana foi oficialmente inaugurada, no bairro Arquimedes Naspolini, no dia 28 de outubro de 2011.

As pessoas que passam pela mina de visitação são inicialmente recepcionadas em um museu, que contém fotos, vídeos, e áudios explicativos sobre a história da mineração em Criciúma. Posteriormente, acompanhados com um guia, os turistas visitam o interior da mina de visitação e podem conhecer suas galerias e como os trabalhos de extração do carvão eram feitos na antiga Mina São Simão. O trajeto tem 300 metros e pode ser feito a pé ou em uma mini locomotiva, réplica do modelo a vapor de 1922 e batizada de Arlei Cardoso, mineiro da antiga mina e maquinista durante a primeira década de funcionamento do ponto turístico. Além da prática de visitação, o espaço também recebe eventos em seu interior, como jantares e palestras.

Trajeto pode ser feito com uma mini locomotiva, réplica do modelo a vapor de 1922. (Foto: Patrick Stüpp/Portal Engeplus)

“O percurso no subsolo explora túneis autênticos, proporcionando ao turista uma imersão nas condições de trabalho e do ferramental de trabalho utilizado pelos mineiros nos primórdios da exploração do chamado ‘ouro negro’ na região carbonífera de Santa Catarina. Durante o roteiro, o passeio revela ainda a evolução dos equipamentos de mineração de carvão e das condições de segurança, tanto das minas como dos mineiros, aliado ao compromisso com a preservação ambiental”, conta Bortolotto.

Fiquei interessado, como posso conhecer? 

Para quem quiser conhecer, a Mina de Visitação Octávio Fontana está localizada na rua Quintino Dal Pont, no bairro Arquimedes Naspolini, em Criciúma. O local é aberto para visitação nas segundas, das 15 às 18 horas, e de terça-feira a domingo, das 9 às 18 horas. O valor da entrada é de R$ 20 e o ingresso pode ser adquirido no local. Professores, estudantes, crianças até cinco anos, idosos acima de 60 anos e doadores de sangue têm direito a meia entrada, mediante comprovação. O agendamento das visitas pode ser feito pelo telefone (48) 3445-8734.


O ponto turístico é administrado por meio de uma parceria entre a Prefeitura de Criciúma com a Satc, que fica responsável por conduzir as visitas no espaço.












Centenários

Centenários guardam a memória viva de Criciúma

Se atualmente a Mina de Visitação Octávio Fontana é um local que atrai visitantes do mundo inteiro, é porque pessoas trabalharam no passado para construir um legado e fazer com que Criciúma se tornasse referência em mineração. É o caso de Benta Bitencourt de Assis, de 100 anos, que integrou o grupo de escolhedeiras de carvão. Em um ambiente predominantemente masculino, sua atuação foi essencial para a indústria mineradora a partir da década de 1940. Ela é uma das poucas pessoas que tiveram a oportunidade de testemunhar um século de história. 

Natural de Jaguaruna, mudou-se ainda jovem para Criciúma com a família, onde trabalhou, conheceu o esposo, Aflânio de Assis, natural de Maracajá, casou e criou sua família. Foram 12 filhos ao todo. Ela conta que gosta da cidade e nunca teve desejo ou motivo para se mudar novamente, pois sua maior riqueza, que é a família, permaneceu perto dela. “Sou feliz de estar aqui nessa cidade, nesse país. Gosto daqui. Claro que se a minha família fosse para outro lugar, eu não iria ficar aqui sozinha. Mas Deus cuidou de tudo”, frisa.

Benta Bitencourt de Assis segurando o retrato de sua família. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

Benta está entre os 14 moradores do município que alcançaram ou ainda vão comemorar a marca de um século de vida em 2025. Quem chega aos 100 anos carrega consigo uma bagagem única de conhecimento, experiências e aprendizados que atravessam gerações.


Assim como ela, o agricultor Wadissuavo Milak, também centenário, guarda na memória lembranças da Criciúma de outros tempos. Natural do município, ele lembra com carinho algumas das histórias que quer manter viva no coração e na memória de seus familiares. Entre tantas delas, está o amor pela terra que herdou, o principal motivo de ter permanecido no município.


Ele viveu inicialmente no bairro Linha Anta até 1950, quando se casou com a criciumense Maria Dagostin, que faleceu aos 91 anos, e se mudou para o bairro Linha Batista, na casa em que vive até os dias atuais. Tiveram dez filhos. Milak trabalhou a vida toda no ramo da agricultura. “Era costume pegar um terreno e trabalhar. Deu de viver bem, ganhei dinheiro e instruí os filhos também”, afirma. 

Criciumense Wadissuavo Milak segurando o retrato que mostra a falecida esposa. (Fotos: Jessica Rosso Crepaldi/Portal Engeplus)

Retrato de Wadissuavo Milak e Maria Dagostin com os filhos (Foto: Jessica Rosso Crepaldi/Portal Engeplus)


Retrato dos pais, irmãos e cunhados de Wadissuavo Milak. (Foto: Jessica Rosso Crepaldi/Portal Engeplus)


Entre tantas memórias ligadas a Criciúma, ele lembra com carinho de como o pai, com quem trabalhava na roça ainda jovem, ajudou na construção da linha férrea e de quando o trem começou a passar pela cidade. “Naquela época era pouco serviço, então eles chamavam porque precisavam de gente e ele ia com outros homens”, comenta.


Aos 18 anos, ele disse que foi dispensado de servir na Segunda Guerra Mundial no dia em que o conflito acabou. “Estavam convocando todos e fomos num grupo grande para Imbituba se apresentar. Não passei no exame da visão, mas acabou que a guerra terminou nesse dia e voltamos para casa”, lembra.


Na memória, ele guarda lembranças de uma Criciúma que cresceu com o passar do tempo. Mas não são somente imagens que ele tem na memória, são lugares e pessoas que um dia fizeram parte da evolução.

“Me sinto feliz. Muitos amigos estão me chamando de centenário e a minha felicidade é festejar esses 100 anos, porque todo mundo quer chegar nessa idade”, frisa.

Outra centenária que faz parte dessa história é Alice Librelato Ortolan, de 100 anos. Ao longo da vida, esteve sempre próxima da Igreja Católica, atuando como catequista e participando de atividades religiosas na comunidade.


Hoje, com a idade avançada, já não guarda tantas lembranças do passado, mas a fé permanece como sua maior força. “Assisto à missa em casa e continuo rezando. Sempre fui muito religiosa e gostei muito de participar das coisas da igreja”, relata.

Alice Librelato Ortolan segurando o rosário, que usa durante as orações, na sala de sua residência. (Foto: Jessica Rosso Crepaldi/Portal Engeplus)

Natural de Meleiro, ela trabalhou na agricultura com o pai. A primeira vez que se mudou para Criciúma foi com a família e seguiu trabalhando em plantações. Quando casou retornou para sua cidade natal, onde morou até o nascimento do segundo filho. Ela não lembra o motivo pelo qual voltou para Criciúma, mas foi aqui que teve seus outros seis filhos e fortaleceu sua fé cristã. Um dos lugares que ela sempre visitava era a Gruta Nossa Senhora de Lourdes, um ponto de turismo religioso da cidade. Atualmente, ela reside próximo à Igreja Santa Bárbara.












Segurança

28ºGAC: um pilar de defesa e desenvolvimento para Criciúma

Assim como as pessoas, instituições e profissionais que delas fazem parte colaboram com uma Criciúma melhor. No município, inclusive, surgem ações que servem de exemplo e são replicadas para outras zonas do território brasileiro. Alguns bons exemplos vêm da área de segurança pública, demonstrando que quem vive no solo do carvão é grato pelas oportunidades recebidas na cidade. Como forma de agradecimento, buscam impactar a vida de outras pessoas.


É o caso do 28º Grupo de Artilharia de Campanha (28º GAC). A unidade do Exército Brasileiro celebra uma longa e sólida trajetória que começou em 1831, na cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Desde sua fundação, a unidade desempenha um papel fundamental na defesa nacional, mas também se tornou uma importante referência de integração e desenvolvimento para as comunidades por onde passou, especialmente em Criciúma, cidade que acolheu o Grupo em 1977.


A transferência do 28ºGAC para Criciúma foi um acontecimento significativo para o Sul de Santa Catarina. Após quase 150 anos de história em São Gabriel (RS) e São Francisco do Sul (SC), a mudança para Criciúma representou um marco não só para o Exército Brasileiro, mas também para a cidade. O processo, que ocorreu escalonadamente entre setembro e novembro de 1977, envolveu a chegada de militares, equipamentos e infraestrutura, consolidando um vínculo importante entre o Exército e os moradores da cidade. 


O coronel Luciano Américo Fonseca de Souza, comandante do 28º GAC, lembra que a chegada da unidade trouxe muitos benefícios para a região. “A mudança fortaleceu a segurança e promoveu um desenvolvimento local significativo. A presença do Exército também gerou empregos diretos e indiretos e possibilitou o desenvolvimento de projetos sociais e culturais em parceria com a população”, afirma.

O coronel Luciano Américo Fonseca de Souza é o atual comandante do 28°GAC. (Foto: João Gabriel da Rocha/Portal Engeplus)

Desafios e conquistas: o desenvolvimento do 28ºGAC em Criciúma

Nos primeiros anos após a chegada à cidade, a adaptação das instalações foi um grande desafio. O Grupo precisou adequar os pátios, lajotas e aterros para suportar as atividades de treinamento. O coronel explica que o processo exigiu planejamento e um grande esforço conjunto de autoridades locais, civis e militares. Com o tempo, a base foi se expandindo, com a construção de novos pavilhões e a ampliação das áreas de treinamento. Um dos marcos dessa evolução foi a inauguração do símbolo "Candeieiro em Chamas", em 1981, que se tornou um orgulho para a Artilharia de Campanha.


Além das obras físicas, o 28º GAC passou a integrar-se de maneira cada vez mais intensa e significativa à comunidade local, fortalecendo laços de cooperação, promovendo ações sociais, educativas e culturais. Desde sua

instalação, o Grupo tem buscado se aproximar dos cidadãos por meio de eventos culturais, esportivos e ações sociais, como o Pelotão Esperança, criado na década de 1990, que atende crianças em situação de vulnerabilidade.


A criação da banda de música do 28ºGAC, em 1994, foi uma iniciativa estratégica para fortalecer a relação do Exército com a sociedade. “A banda tem sido um grande instrumento de comunicação, promovendo não somente a cultura e as tradições do Exército, mas também aproximando a população das atividades militares”, explica o coronel.  

A banda de música do 28ºGAC existe há 31 anos. (Foto: João Gabriel da Rocha/Portal Engeplus)

A influência do 28ºGAC nas próximas gerações 

Visando fortalecer a liderança e a formação de novos militares, em 2016 o 28º GAC criou o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), um projeto que visa capacitar cidadãos da região para o serviço militar como oficiais da reserva. Essa iniciativa gera um impacto positivo não só no Exército, mas também na vida pessoal e profissional dos participantes.


“A criação do NPOR é uma maneira de investir no desenvolvimento de nossos jovens, promovendo disciplina, ética e responsabilidade social. Além disso, fortalece a presença do Exército no Sul de Santa Catarina e estreita ainda mais os laços com a comunidade”, destaca. 


O legado do 28º GAC para Criciúma é profundo e abrangente. A unidade não só contribui para a segurança da cidade e região, mas também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento social, econômico e cultural. Sua atuação vai além da defesa nacional, influenciando positivamente a vida dos cidadãos e ajudando a criar uma cultura de cidadania e disciplina.


O coronel observa que o 28ºGAC ajudou a conter o êxodo de jovens da região ao oferecer a possibilidade de realizar o serviço militar sem precisar se afastar de suas famílias. “A nossa presença tem sido essencial para o desenvolvimento da cidade e para a formação de cidadãos comprometidos com a pátria e com a sociedade”, frisa.

Jovens de Criciúma devem se alistar no Exército no ano que completam 18 anos. (Foto: João Gabriel da Rocha/Portal Engeplus)

Além da farda: militares de Criciúma desenvolvem protocolo de atendimento para pessoas com autismo 

Outro exemplo vem do 4º Batalhão de Bombeiros Militar (4º BBM) do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC). Com sede em Criciúma, a unidade é destaque no país e também no mundo não pelas ocorrências atendidas, mas por pensar no próximo e desenvolver um projeto pioneiro no Brasil. Nasceu em Criciúma o Protocolo Operacional Padrão para Atendimento Pré-Hospitalar (APH) personalizado para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) do CBMSC.


O protocolo foi criado em Criciúma pela sargento Ana Paula Souza de Freitas e o comandante do 4º BBM de Criciúma, tenente-coronel Henrique Piovezam da Silveira, que também é presidente da Coordenadoria de Atendimento Pré-Hospitalar do CBMSC. 

Ana Paula e Henrique criaram o Protocolo Operacional Padrão para Atendimento Pré-Hospitalar (APH) personalizado para pessoas com TEA. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

“Iniciamos a primeira conversa no final de 2022, porém começamos realmente a trabalhar no processo em 2023, entretanto, ele foi publicado no dia 2 de abril de 2024. Mas, tudo iniciou com a Ana Paula. Ela e o também bombeiro sargento Donadel possuem um filho com autismo. Ao assistir uma reportagem que alguns órgãos estavam apresentando uma cartilha de atendimento para pacientes com autismo, a sargento trouxe a informação que nós precisávamos desenvolver um padrão de atendimento”, relembra o comandante. 

Após a conversa, o comandante e a sargento iniciaram pesquisas e encontraram a professora da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Cinara Ludvig Gonçalves, que coordena o Laboratório de Pesquisa em Autismo e Neurodesenvolvimento (Land) e participa ativamente de eventos e pesquisas sobre Transtorno do Espectro Autista.


“Conversamos com ela, que também nos ajudou muito. Mas, como mãe de uma criança autista e bombeira, percebi que eu e os colegas não estávamos preparados para atender crianças e adultos com autismo. Todo mundo desconhece como é o paciente autista, que possuem peculiaridades únicas. Porém, o comandante ressaltou que se fosse para criarmos algo, teríamos que fazer com base científica e, por isso, buscamos a professora Cinara e a Unesc, que possuíam o conhecimento científico”, explica.

Cartilha utiliza pelo Corpo de Bombeiros de Santa Catarina para atendimentos de pessoas com autismo. (Foto: Divulgação/CBMSC)

Mudanças de protocolo no CBMSC

O protocolo visa principalmente preparar os socorristas para lidarem com as especificidades comportamentais dessas pessoas, garantindo um atendimento mais humanizado e seguro. Dentre as ações aplicadas para o atendimento, está o cuidado com fatores que possam desencadear crises durante o socorro. 

Aplicação para todo o estado

Após desenvolverem o protocolo, eles realizaram um fluxograma e apresentaram ao comando-geral do CBMSC, que homologou a ação, virando um procedimento operacional padrão em Santa Catarina. “Todos os bombeiros têm que ter esse fluxograma na sua viatura. Nas centrais de operações tem o fluxograma para atender as pessoas, caso necessário”, frisa a sargento. Os treinamentos para os quartéis de Santa Catarina foram realizados por vídeo e atualmente outros militares do estado possuem a capacitação para replicarem em outras unidades do CBMSC. 

Ana Paula e Henrique com a cartilha pronta sobre os procedimentos. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

Além de Santa Catarina, outros estados brasileiros, como São Paulo e Amapá, também demonstraram interesse em adotar o protocolo desenvolvido no estado. A iniciativa, que tem se destacado como referência nacional, busca padronizar e aprimorar o atendimento às famílias em situações específicas de vulnerabilidade, garantindo mais acolhimento, eficiência e sensibilidade por parte das equipes envolvidas.

Números

No primeiro ano do protocolo, foram realizados 459 atendimentos a pessoas com TEA. (Foto: Divulgação/CBMSC)




No dia 2 de abril de 2025, completou um ano de implementação do protocolo em Santa Catarina. Até completar 365 dias, foram realizados 459 atendimentos a pessoas com TEA em diversas emergências. Ao longo do primeiro ano de vigência, o protocolo possibilitou que 433 atendimentos fossem direcionados para APH, além de 16 ocorrências envolvendo busca, resgate e salvamento, nove ações preventivas, três apoios e duas classificações diversas. Entre as principais situações atendidas, destacam-se:

  •  66 casos de convulsão
  • 58 quedas
  • 43 desmaios
  • 40 emergências psiquiátricas

Do Rio Grande do Sul para fazer história em Criciúma 

Sandra Vaz é advogada por formação e natural do interior do Rio Grande do Sul. Porém, foi em Criciúma que encontrou a oportunidade de realizar um dos seus principais sonhos profissionais: atuar na Polícia Civil. Há 10 anos, a gaúcha deixou de lado a rotina em escritórios para participar de operações que acontecem, principalmente, nos bairros mais perigosos de Criciúma. Atualmente, a policial civil atua no Departamento de Investigação Criminal (DIC) e coordena o Núcleo de Operações com Cães (NOC) há seis anos.


Embora perigosa, a rotina de Sandra nunca é considerada solitária, já que conta com a parceria da Lua, uma cachorra da raça pastor belga malinois e que está com a policial civil desde 2021. Além da ajuda no trabalho de campo, atuando na detecção de armas e drogas nas cenas de crime, a vinda de Lua para o município também estimulou a criação de um dos principais projetos da Polícia Civil em Criciúma: o Programa K9 na Escola. Idealizado por Sandra, a iniciativa é realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Educação.

Lua atua nas operações com a policial civil desde 2021. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

“Quando realizávamos operações em Criciúma, em determinadas casas encontrávamos crianças, que geralmente se sentiam apavoradas com a presença da Polícia Civil e Polícia Militar (PM). Porém, quando conseguimos a Lua com o Governo do Estado, as crianças se aproximavam mais e não ficavam tão assustadas. Por conta disso, tive a ideia de criar um projeto para levar a Lua às escolas e falar um pouco do nosso trabalho para as crianças da rede municipal de ensino, por meio de atividades lúdicas”, lembra. 


Todo o projeto estava formulado na cabeça de Sandra, mas demorou quase um ano para a iniciativa sair do papel. O Programa K9 na Escola começou a ser pensado em 2022, entretanto, foi somente em 2023 que Lua entrou pela primeira vez em uma sala de aula e encantou as crianças das escolas municipais de Criciúma. Ainda, devido ao apoio da Prefeitura de Criciúma, Sandra conseguiu o apoio da amiga e coordenadora pedagógica Cinara Lino Colonetti, especializada no Atendimento de Educação Especializada (AEE) e que atua nas atividades ao lado da policial civil desde o início do projeto.

Lua em ação e atividades lúdicas

Inicialmente, o foco do projeto eram estudantes do terceiro e quarto ano do Ensino Fundamental de escolas localizadas em bairros mais ‘vulneráveis’ de Criciúma, onde geralmente ocorrem as operações da Polícia Civil. Porém, com o passar do tempo, a iniciativa ganhou destaque e começou a abranger escolas de diferentes localidades do município. Desde a primeira ação, o Programa K9 na Escola já atendeu quase 5 mil crianças. O projeto é como se fosse uma palestra, realizada somente uma vez na instituição de ensino.


“Nossa iniciativa é diferente do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), pois fazemos nossas atividades em apenas um dia. Desde pequenas, determinadas crianças já são atingidas pelo tráfico de drogas em Criciúma, então, é importante mostrar que elas podem contar com a Polícia Civil. Além disso, também falamos sobre bullying, violência e desenvolvemos atividades pedagógicas em equipe que auxiliam na concentração e coordenação motora de cada estudante. Tudo é feito de forma lúdica, como se a sala de aula fosse uma grande Delegacia de Polícia”, conta Cinara, responsável pelo agendamento das visitas nas escolas.

Lua é uma cachorra da raça pastor belga malinois. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

As pinturas e atividades em equipe são umas das partes essenciais no Programa K9 na Escola, mas o ponto-chave é quando Lua entra em ação nas salas de aula. Com demonstrações de obediências, feitas por Sandra, a pastora belga chama a atenção e encanta as crianças por onde passa. No final de cada aula do programa, as crianças recebem uma fala sobre a importância do respeito com as autoridades e conhecem um pouco mais do trabalho da Polícia Civil de Criciúma. Por último, ganham um distintivo que podem levar para casa e utilizar na escola.

De Criciúma para outros estados brasileiros

Sandra Vaz poderá ver seu projeto sendo executado em outros estados do país. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

Apesar de ter sido fundado em Criciúma, o Programa K9 na Escola virou referência em outros locais do Brasil, que estão interessados em aderir ao projeto. Conforme a coordenadora do NOC, um planejamento está sendo feito para desenvolver a iniciativa primeiramente no Rio Grande do Sul, que será realizada pela Polícia Penal (PP). Todavia, os estados de São Paulo e Acre também estão interessados em aderir ao projeto futuramente. Sandra destaca que é um sentimento de alegria ver as crianças, instituições de ensino e outros locais aceitando o Programa K9 na Escola.


“Dependo das operações da Polícia Civil, sempre visito as escolas durante os meus dias de folga. Então, ver esse projeto crescendo e se desenvolvendo, é como se fosse um filho. É uma alegria presenciar a aceitação das crianças e também o interesse de outros estados que ficaram encantados pelo Programa K9 na Escola. Espero que outros colegas de profissão adotem esta causa para conseguirmos manter este projeto por muito tempo. Por conta disso, não me vejo saindo de Criciúma, pois este programa me estimula a ficar e amar o município”, ressalta.

 

Além do programa K9 na Escola, Sandra também é idealizadora de outra iniciativa que vem ganhando destaque em outros estados. A ação se trata da criação de um projeto de canil sustentável. O projeto, também desenvolvido pela Polícia Civil com apoio da Prefeitura de Criciúma, conta com containers, alojamentos, áreas administrativas e parte de treinamento dos cachorros. A ideia ainda precisa de recursos para iniciar as obras, mas já foi apresentada para o Ministério da Justiça, em Brasília, que mostrou interesse em construir e implementar a iniciativa em todo Brasil. 

Natural de Porto Alegre, contribui com dedicação à segurança de Criciúma

Capitão da Polícia Militar (PM) de Criciúma, Giovanni Fagundes dos Santos, de 40 anos, é um exemplo de dedicação não somente à sua profissão, mas também à cidade que escolheu como lar. Natural de Porto Alegre (RS), o oficial mora em Criciúma há mais de nove anos e, ao longo desse tempo, construiu não só uma carreira sólida na corporação, mas também um profundo vínculo com a comunidade local.


“Criciúma me acolheu desde o primeiro dia e, ao longo dos anos, pude ver de perto a força e a união dessa cidade. É aqui que criei minha família, onde me sinto em casa e onde tenho o privilégio de servir’, afirma o capitão.

Capitão Giovanni mora há mais de nove anos em Criciúma. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

Trabalhar com segurança pública é ter amor ao próximo, dedicar a sua vida para salvar outras, sair de casa sem saber o que terá pela frente e defender o patrimônio alheio simplesmente por honra ao Estado. Essas são as missões de muitos policiais militares, assim como a de Fagundes, que atualmente comanda a Companhia de Policiamento e Apoio Especializado (CPAE). Há 11 anos na Polícia Militar de Santa Catarina, atualmente ele é responsável pelo Pelotão de Patrulhamento Tático (PPT), Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam), Regimento de Polícia Militar Montada (Cavalaria) e Companhia de Policiamento com Cães (Canil).

O amor pela segurança pública vem de berço. Sua mãe é policial civil, seu pai, padrasto e avós atuam ou atuaram na Brigada Militar (RS). "Iniciei minha carreira há 11 anos em Florianópolis com o Curso de Formação de Oficiais Policiais-Militares (CFO/PM). Mas há nove anos atuo em Criciúma e escolhi a cidade por ser a mais próxima de Porto Alegre. Está no sangue o amor pela segurança pública", relata.


Ser capitão é uma grande responsabilidade, segundo o militar. "É um posto importante. Sou oficial intermediário, já ocupo a função de capitão, pois estou há sete anos atuando na função, e comandar a CPAE é função de capitão", cita. 


O capitão admite que comandar a CPAE é um sonho realizado, porém ainda almeja mais. "Atualmente, me sinto realizado ao comandar a CPAE e ajudar a cidade de Criciúma e a região carbonífera. Temos um time comprometido e que trabalha muito. São mais de 50 policiais na CPAE e me sinto honrado com o posto de comandante. Mas também tenho o desejo de comandar um batalhão”, observa. 

Gaúcho ajudando a segurança de Criciúma

Foi o capitão que habilitou os policiais do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Criciúma a atuar com fuzil, processo iniciado após o maior assalto a banco do Brasil, registrado há cinco anos em Criciúma. "Quero buscar ainda mais aprendizado para também especializar a tropa. Conhecimento nunca é demais e querer saber mais e mais é muito importante para a segurança pública", argumenta.

 

Para o capitão, buscar conhecimento faz parte da estratégia da PM. "Atuamos na prevenção dos casos, mas as pessoas têm a imagem da polícia ostensiva, que está sempre fazendo operacional, entretanto, somos mais do que isso. Temos uma doutrina que é ser uma polícia comunitária, ou seja, atuar na causa e não na consequência. Estamos atuando em ações sociais também", comenta.

Capitão comanda mais de 50 policiais pela CPAE. (Foto: Fabrício Júnior/Portal Engeplus)

"Temos um planejamento envolvendo pré-vestibular, ou seja, explicar aos adolescentes e jovens de comunidades mais carentes a importância de um vestibular ou até mesmo de um concurso público e ajudar essas pessoas com a educação. Não são todos os estudantes com a mesma oportunidade na vida e nós podemos mudar isso de alguma maneira. Nosso objetivo é atuar na prevenção. Se esse jovem está estudando e focado em uma atividade, ele não está no crime", complementa. 

Equoterapia

A Polícia Militar e a Associação de Pais e Amigos dos Autistas da Região Carbonífera (Ama-rec) atuam em projetos em conjunto, como cinoterapia e equoterapia. "São projetos que envolvem a Cavalaria e o Canil. É um trabalho mágico e que nos traz muitos resultados. Conseguimos mudar a vida das crianças e ajudarmos muitas famílias", afirma o capitão. 


Conforme o capitão, a Polícia Militar atua ligada por setores. "Estamos nas ruas e muitas vezes trocamos informações com o setor de inteligência, por exemplo. Essa comunicação resulta em apreensões de drogas, armas e, claro, também na prisão de criminosos", explica. 



A CPAE ainda atua em eventos com grandes aglomerações com a cavalaria, por exemplo. "A cavalaria tem papel fundamental em eventos que têm grandes públicos como jogos de futebol, manifestações e festas. O policial visualiza melhor o ambiente em virtude de estar montado no cavalo e o criminoso também percebe o militar à distância. Dois policiais montados servem como 20 policiais no chão, pela presença e por conseguir visualizar a área melhor", comenta. O capitão tem duas filhas e ambas moram na cidade.

Trabalho da equoteria é realizado com crianças da região carbonífera. (Foto: Divulgação/PMSC)

O perito criminal bioquímico que transforma sua experiência em contribuições para Criciúma 

Natural de São Paulo, mais precisamente do bairro Perdizes, André Bittencourt Martins, de 46 anos, sempre teve uma ligação especial com Santa Catarina. Desde sua infância, quando veio ao estado de férias com seus pais, ele se encantou pela limpeza, educação e pelo acolhimento que encontrou no estado. Essas lembranças marcaram profundamente sua decisão de, anos depois, transformar Santa Catarina em seu novo lar.


Após concluir sua graduação em Farmácia Bioquímica e um mestrado na mesma área, ambos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), André decidiu seguir a carreira de perito criminal. Sua escolha por Santa Catarina não foi por acaso. Ele já havia identificado que o estado era um bom lugar para se viver e trabalhar. "Quando fui procurar lugares para morar e trabalhar, escolhi Santa Catarina, lembrando da minha infância aqui", conta.

André Bittencourt Martins atua na Polícia Científica no Sul de Santa Catarina. (Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus)

André prestou o concurso para a Polícia Científica em 2008 e, embora tenha ficado em quinto lugar na classificação, foi colocado na lista de espera. Enquanto aguardava, trabalhou na Vigilância Sanitária em São Paulo. Quando finalmente foi convocado, enfrentou um grande dilema: deixar para trás um concurso estável e trazer sua esposa e filho pequeno para Santa Catarina. Após refletir sobre as vantagens que o estado oferecia, como qualidade de vida, segurança e menos tempo perdido no trânsito, ele tomou a decisão de se mudar para Florianópolis para a academia de polícia e, posteriormente, para Criciúma.

Chegada a Criciúma e atribuições na Polícia Científica

Desde novembro de 2012, André atua como o único perito bioquímico da região Sul de Santa Catarina, sendo responsável pela produção de reagentes químicos e pela realização de análises de drogas para a Polícia Militar, Polícia Civil e outros órgãos da região. Sua especialidade inclui a criação de laudos de substâncias ilícitas, como cocaína e crack, além de reagentes usados em investigações de crimes como adulteração de veículos, balística e investigações de mortes


"Sou responsável por produzir todos os laudos de droga, todos os reagentes. Desde que comecei a produzir laudos em 2012, já devo ter ultrapassado a marca de 20 mil laudos relacionados a drogas”, revela.


Em sua rotina, André também realiza treinamentos para as forças policiais, como a Polícia Militar, abordando temas como a identificação de drogas, a análise de sangue oculto em cenas de crimes e o uso de luminol para detectar vestígios de sangue. Esses treinamentos são fundamentais para aprimorar o trabalho dos policiais no combate ao tráfico de drogas e na investigação de crimes violentos.

Assalto ao Banco do Brasil: desafios e superação da Polícia Científica

Em 2020, André teve um papel de destaque no caso do assalto ao Banco do Brasil em Criciúma, que ficou conhecido como o maior assalto a banco do país. Na ocasião, ele estava como superintendente da Polícia Científica e esteve diretamente envolvido na realização de mais de 69 perícias em uma semana. “Foi uma situação bem desafiadora, mas conseguimos encontrar provas essenciais para a prisão dos criminosos", relata.

Crime completa cinco anos em dezembro de 2025. (Foto: Lucas Renan /Portal Engeplus)

O caso envolveu uma série de investigações complexas, incluindo o uso de provas de DNA, que ajudaram a rastrear os criminosos até São Paulo. "Usamos a tecnologia e o banco de DNA para encontrar a autoria dos crimes. O trabalho da Polícia Científica foi crucial para o sucesso da investigação", diz ele, lembrando que, muitas vezes, o trabalho de um perito criminal é invisível, mas essencial para o andamento da justiça.

Apesar de seu trabalho ser muitas vezes invisível para a população, André explica que a função da Polícia Científica é central para o andamento dos processos criminais. “O objetivo é encontrar a autoria e a materialidade dos crimes, ou seja, descobrir quem cometeu o crime e quais objetos estão envolvidos. Isso é fundamental para a investigação e para a Justiça”, afirma.


A rotina do perito é intensa e exige treinamento constante. André destaca que, além da identificação de drogas, ele também atua em diversas outras áreas, como balística, metalografia (para identificação de adulterações de veículos) e, principalmente, na análise de cenas de crimes violentos. “É essencial que o perito esteja sempre atualizado. Quando uma nova droga surge, precisamos entender sua composição e suas características para identificar rapidamente”, explica.


Além de seu trabalho na Polícia Científica, André também se dedica a palestras educativas em escolas e universidades, visando conscientizar a comunidade sobre os perigos das drogas e os impactos que elas têm na sociedade. “Sempre mostro aos alunos como as drogas são feitas, os reagentes químicos usados e os malefícios que causam à saúde”, conta.

A busca pelo conhecimento é uma constante em sua vida profissional. "Estou sempre estudando novas substâncias e acompanhando as tendências do mercado de drogas. Isso é importante para podermos identificar rapidamente qualquer nova droga que surja no estado", comenta.


Um exemplo disso aconteceu recentemente, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontrou um pó branco cristalino na região de Tubarão. Com base em seu conhecimento, André logo identificou a substância como cetamina, uma droga dissociativa utilizada em veterinária e que pode causar efeitos graves em humanos.


"Fazer parte da Polícia Científica é muito gratificante. Podemos ser a chave para resolver mistérios e levar justiça às pessoas", pontua. Apesar de não ser natural de Criciúma, André mora com a família na cidade e em 2015, seu filho mais novo nasceu no município. “Eu tenho um criciumense e que torce pelo Criciúma. Vim de outro Estado, mas foi aqui que encontrei um bom lugar para viver, para ter mais um filho e para viver com minha família”, acrescenta. 


















Futuro

O futuro e as próximas gerações

Se Marcos Rovaris foi importante na emancipação, Dizelda Coral Benedet abriu caminhos para outras mulheres e tantas outras pessoas construíram o município e sua história nos últimos 100 anos, o futuro também será marcado pelas novas gerações, que enfrentarão desafios com o crescimento populacional, tecnologias e mão de obra. 

Conforme o professor e coordenador do Observatório de Desenvolvimento Socioeconômico e Inovação da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Afonso Valau Junior, entre 2010 e 2024, a população residente do município cresceu de 197 mil para cerca de 225 mil habitantes. 


“Esse crescimento, no entanto, não é homogêneo: a presença de jovens entre 15 e 29 anos caiu expressivamente, enquanto o contingente de idosos, sobretudo acima de 70 anos, mais que dobrou em pouco mais de uma década”, ressalta. Nesse período de 14 anos, a população de 60 a 69 anos cresceu 101%, a de 70 a 79 anos aumentou 111% e a de 80 anos ou mais avançou 97%. 


Com isso, Criciúma passou de uma proporção de um idoso para cada sete adultos em 2010 para um idoso para cada quatro adultos em 2024. “Essa tendência acompanha o que é observado no Brasil e em Santa Catarina, que passaram de um para seis, em 2010, e um para quatro em 2022. O município, portanto, segue a mesma trajetória de envelhecimento do estado e do país, aproximando-se da realidade de países como os Estados Unidos, onde já é de um para quatro, e de algumas nações europeias, embora ainda distante do caso extremo do Japão, com um idoso para cada dois adultos”, compara o professor.


Segundo ele, Criciúma atravessa um processo acelerado de transformação demográfica, que projeta novos cenários para a economia, os serviços públicos e a qualidade de vida. O sistema de saúde deve sentir o impacto mais imediato, com a elevação da demanda por atendimentos especializados voltados à população idosa.


Em paralelo, Criciúma registra um saldo migratório positivo, com a chegada de novos moradores que ampliam a diversidade cultural da cidade. Esse movimento, no entanto, também impõe desafios, como a necessidade de estratégias voltadas à integração social, à oferta de habitação acessível e a uma mobilidade urbana mais eficiente.

“Além disso, a vinda de migrantes, especialmente do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, tem sido fundamental para repor a força de trabalho e dinamizar a economia local”, finaliza o professor.


O futuro, sem dúvida, será desafiador. O mundo está em constante mudança, com novas demandas, avanços tecnológicos e questões sociais que exigem adaptação e inovação. Mas Criciúma tem algo que sempre foi seu diferencial: a força do seu povo. O morador da cidade, conhecido pela garra e determinação, nunca fugiu de batalhas, seja nos campos da economia, da cultura ou da educação. E essa força continuará sendo o alicerce para os desafios que virão pelos próximos 100 anos. 

Matéria Especial Portal Engeplus

Quem bebe da água do carvão transforma Criciúma

Reportagem e texto:

Design e diagramação: Equipe Marketing Engeplus Empresas

Fotos: Grupo de Fotos Antigas de CRICIÚMA - SC.

Agradecimento especial a todos os entrevistados que contribuíram com esta reportagem.